quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Não é que o In Certo virou palhaçada!!!!. - Cena 02



Palhaçaria é padecer no paraíso. Estimulante, desesperador e, principalmente, apaixonante. Estou apaixonada por essa palhaçacinha que criei e não sei como terminar ou melhor começar essa história. Êh! Vida...
Minha noiva-palhaça, alcoolatra e deprimida está muito segura em sua caixa. Poeticamente iluminada, sob um recorte vermelho, ela sofre sendo espionada por sua amiga estranha. E eu sofro também, por saber que terei que abandonar a imagem/estrutura que construir (pelo menos por enquanto) e me aventurar nas incertezas da sala de ensaio crua e da rua expondo/testando seu sofrimento. Será que a noivinha resistirá? Que será dela e de mim reboladas nesse mundão de Deus?
"O palhaço lida com o fracasso. Um bom palhaço tem uma cara de fracassado!" dizia num portunhol encabulado Oskar Zimmerman numa oficina no Theatro José de Alencar ano passado. Foi ele que me lembrou que o palhaço trabalha com erro, com a tentativa. É uma condição paradoxal e porque não dizer trágica: treinar o erro para poder acertar.
E lá vamos nós pela rua...
Olha a palhaça no meio da rua...



Projeto In certo: Cena 01 - CÃO FEROZ



"- Quero que você saiba que não sou eu que estou lhe deixando. Você já me deixou faz tempo?


-De novo com essa conversa?

- É a ultima vez. Vou deixar você em paz.

Quem disse para ele que eu quero paz? Eu quero guerra."

(Paulo Leminski)


Para primeira proposta de cena, recebi um envelope de papel do Ricardo (Tabosa) que continha um texto retirado de um blog da internet. Esse texto se iniciava com uma epigrafe de Paulo Leminski e foi a partir dela que busquei inspiração pra meu primeiro exercício.

O texto remetia a situações que vivi, me reconhecia na linguagem e isso me instigava bastante. Desde do inicio sabia que partindo dessa premissa para criação optaria por uma cena que falaria de mim e isso me deixava um pouco relutante. Como se não bastasse essa ser praticamente uma "estreia" (seria a primeira fez que apresentaria uma cena criada para um exercício no grupo), me sentia duplamente exposta por levar referencias da minha vida sentimental. Resolvi desencanar pois não tinha outra ideia e por acreditar que de um jeito ou de outro acabamos falando de nós quando criamos algo.



Queria usar folhas secas e amareladas. Acho lindo: me remetem a tempo que passa, a nostalgia, a abandono, a outono, gosto da textura, do cheiro, da cor, do som quando as manipulamos. Todo dia quando ia para a sede passava pelo 23º BC e paquerava com aquelas lindas folhas de eucalipto caídas e me perguntava o quê as pessoas iram pensar quando de dentro de seus carros vissem uma pessoa recolhendo aquelas folhas com enorme saco de lixo preto? Um belo dia, limparam a rua e as folhas se foram. Adeus folhas... Pelo menos eu pensava que seria assim...



Outro elemento que queria usar era uma música do Portishead. Adoro esse grupo. E ele me em embalou alguns momentos. Na época estava ouvindo bastante o disco Third.



Trabalhar com o Yuri (Yamamoto) e o Aristides (Ribeiro) me ensinaram a pensar nos detalhes e na composição da imagem do personagem/persona e da cena. Cada detalhe é importante: o porquê desta roupa e não aquela, o que quero mostrar/esconder com luz. Pensei nesses detalhes e preparei opções pra utilizar na execução do trabalho.



Faltava juntar tudo e ver no que dá. Fui pra sede com todos elementos e um pouco de desespero por não saber se aquele emarananhado de ideias e tralha de coisas resultaria em algo. Disponha de elementos e não sabia o que fazer. Tinha medo de ir para sala de ensaio. Me intimidava o grande salão preto por isso preferir ficar na sala de reunião. Ouvindo obsessivamente o mesmo cd, depois a mesma música "Nylon Smile", me deixei levar pela musica: os movimentos surgiram, as ideia foram se organizando, me veio a cabeça um texto meu "cão feroz" e comecei a dizê-lo da forma que me lembrava. Repeti, repeti. Já sabia o que faria. Escrevi o texto e organizei mentalmente um roteiro. Fui a sala de material, escolhi um outro figurino ( minha primeira proposta era um vestido longo quase de festa rs...), queria algo mais intimo, escolhi uma camisa masculina branca. Peguei um banco preto. Separei o material para luz: um espelho, velas e uma lâmpada incandescente. Separei algumas lembranças e a musica que usaria e fui para sala prepara-la para minha cena. As folhas ainda me martelavam a cabeça, andando pelo quintal da casa vi varias. Não eram as de eucalipto mas tinham seu charme. Recolhi-as. Cheguei na sala com um saco de folhas e sem saber se as usaria. A Taty (Amorim - que apresentaria sua cena no mesmo dia e que operou minha sonoplastia) já estava lá no salão disse "Usa mulher!" era o que faltava.

Antes da apresentação fiquei nervosa, achei que nada daria certo. A apresentação aconteceu e fiquei feliz com o resultado. Vi que as aulas de dança contemporânea da Fabíola (de Paula) me influenciaram na criação e que a união dos movimentos, texto e música geraram uma cena perfomática, quase um teatro-dança.

Primeiro trabalho cumprido! Que venham os próximos.