terça-feira, 30 de junho de 2009

“Instantâneo” e/ou “Como poderia ter sido” e/ou “Nunca compre um miojo durante uma crise existencial”

Colocou delicadamente a água dentro do copo de plástico, sempre odiava quando um pouco do liquido escorria queimando lhe os dedos. Fechou a abertura por onde despejara a agua e esperou. Agora seria uma questão de minutos: dentro de meros três minutos, uma deliciosa refeição estaria pronta. Olhava fixamente para o copo tampado. Que mistérios se esconderiam naquele pote. Que mágica transformaria aquele macarrão insípido, seco e esturricado num delicioso macarrão instantâneo? É lógico que sabia que ele, o macarrão, era desidratado, assim como os outros ingredientes que o acompanhavam, e que ao entrarem em contato com o liquido se hidratavam e os sabores se misturavam, condensavam, aglutinavam se, o diabo a quatro, e pronto... Está pronto. Até aí compreendia completamente. O que a fazia duvidar era como é possível gostar e até desejar aquele alimento cujo sabor é a pura encarnação da artificialidade.
Decidiu levantar a tampa e espiar por quais transformações passavam sua refeição. A primeira coisa que lhe chamou atenção foi as ervilhas, bem o que viria a ser as ervilhas. Eram pequenas bolas murchas, que não tinham gosto de nada, que boiavam sem rumo numa mancha amarronzada que tinha o sabor de carne, embora o gosto ilustrasse mais do que lembrasse o que se propunha. O macarrão amolecia aos poucos, ao mesmo tempo em que algo nela esmorecia também. E lembrava se que um dia em algum lugar remoto ouvira dizer que somos o que comemos. E assolada por essa lembrança, constatou que se essa sentença fosse verdadeira, ela, com certeza, seria parecida com aquele macarrão.
Esta constatação lhe deixou estarrecida. Ela que se julgava tão autentica, tão segura de si, se parecer com uma comidinha mixuruca e praticamente sem valor nutritivo. E pior artificial. A artificialidade era o que mais lhe doía, e agora lembrava se de todas pequenas "artificialidades" que cometera no dia a dia: como o sorriso forçado que dera outro dia, as desfeitas que tinha que engolir seja no trabalho ou em casa e que fingia que não via, lembrou-se até de uma vizinha da época da infância que não suportava. Por que aceitava essas pequenas farsas? Por que compactuava com essas mentiras? Sorrir quando na verdade não queria, ser fria quando em seu interior desejava estar em erupção, e outras renuncias pequenas que só se tornam menores por que os outros as estabeleceram como tal. Desejou ardentemente ser livre, mas como descobrir a liberdade presa ao seu simulacro, o seu copo, onde desde a origem já estava definido o que ali caberia. Teria a força de romper as barreiras de sua própria limitação? Indo de encontro à linha que delimita a quantidade estipulada da água e transbordar ou então propositalmente aceitar o fracasso do preparo não depositando ali a água esperada. Todas as duas opções traziam consigo o estigma do fracasso, da não -adequação. Por mais boba que fosse sabia quão difícil é ser diferente num mundo onde todos querem ser iguais. Por fim sabia, também, que tudo se resumia ao macarrão que agora misturava: poderia derruba-lo, mandando tudo as favas, ou então o engolir por mais difícil que seja a digestão, restando lhe o consolo e apoio dos mais diferentes tipos de digestivos.
Era uma escolha difícil. Olhava para massa dentro do pote e realmente não sabia o que fazer. tinha que haver outra opção. Até que uma ideia simples lhe surgiu. Ora! Poderia comer outra coisa. Feliz correu para o armário, abriu-o: biscoito recheado sabor artificial de morango, queijo síntetico sabor cheddar, creme sabor cebola com corante anilina, gelatina sabor chiclete, sopa de feijão com aroma artificial de bacon, arroz colorido geneticamente modificado... Desesperadamente começou a lançar os produtos no chão. Mas na medida em que adentrava nas partes mais abissais do armário mais longe ficava dos produtos naturais que almejava. Será que nesta porcaria de casa não tem nada legitimo e saudável? Foi a geladeira porém só encontrou uma alface murcha e queimada pelo frio. Angustiada lançou se a rua, correndo como uma desvairada. Buscando incessantemente uma verdadeira naturalidade que nem mesmo ela era capaz de definir. Correu muito, atrapalhando o transito, causando acidentes, incomodando os transeuntes. Até que viu uma linda vitrine numa loja muito distinta que reproduzia com beleza um pequeno jardim com maravilhosas rosas sem perfumes e lá ficou até que o gerente chamou uma viatura que a levou presa por desordem, invasão e desacato a autoridade. Hoje, depois de seis meses de terapia, diversos ansioliticos e antidepressivos, e doses absurdas de prozac, ela se considera uma pessoa feliz embora sempre que coma um miojo sinta uma vontade incrível de chorar.
13/10/2003

segunda-feira, 29 de junho de 2009

SEM ANESTESIA, POR FAVOR.

Sentado em sua cadeira, lembrava-se. E enquanto recordava, involuntariamente, acariciava o sexo que repousava entre suas pernas. Preguiça e luxuria misturavam-se, num desses raros momentos de ócio que só com o auxilio da memória ou da imaginação somos capazes de produzir. O que o excitava propriamente não era os atributos físicos do objeto em questão, mas a forma como ela se aproximara dele. E a frase. A frase que recorria em sua mente como um mantra: Sem anestesia, por favor.
...
Acostumado a lamentos e gemidos. As crises recorrentes de fobia e pânico. tendo muitas vezes que se transformar em psicólogo, profissão que de forma alguma estava preparado para sê-lo nem por formação muito menos por aptidão. Aquele homem, um dentista, que muitas vezes utilizava a anestesia de forma abusiva para evitar todo tipo de dialogo ou explicação demasiada sobre qualquer procedimento que gerasse dor, espantou se de forma irremediável quando a jovem pálida, sentada em sua cadeira de trabalho, disse com uma tranquilidade sobre-humana que declinava e preferia que todo procedimento fosse realizado sem paliativos ou subterfúgios químicos. E de forma redundante afirma: sem anestesia, por favor.
...
O homem por momentos permanece estático. A frase o atingira não só pelo o carater inusitado. Uma incongruência se estabelece. Nunca em tantos anos de profissão algo parecido lhe acontecera. A dor era o inimigo a ser combatido: a anestesia era a sua maior aliada, mas insatisfeito já colocara músicas em seu consultório, bichinhos coloridos a enfeitar a aparelhagem e até óculos que transmitem imagem ou filmes encomendara; tudo com o simples objetivo de esquecer que estiveram lá, a cuidar dos dentes, sentindo o menos possível as consequências de tantos anos de abandono bucal. E agora isso.
Mas teremos que arrancar, diz o homem numa tentativa vã. A jovem permanece irredutível. Ele então prepara os instrumentos: um a um coloca na bandeja. Instintivamente pega a injeção, mas recorda-se que hoje, ou melhor, que neste momento ela não será usada. Um arrepio percorre seu corpo e ele observa a jovem pálida e tenta desvendar que segredos e trauma se escondem por trás desse semblante sereno. Algo bom não será, pensa e senti uma pitada de remorso por julgar uma pessoa da qual mal o nome sabe.
Especulações sem sentido que visam apenas adiar o momento do trabalho. Nem por um minuto, o dentista pensa que pode simplesmente recusar o serviço. Não, ele apenas executa aquilo que foi treinado para fazer. Mas cada passo lhe dói como se fora ele o paciente sentado na cadeira. Sente cada puxão e solavanco dado no dente resistente. Soa e nele ressoa cada gemido emitido pela jovem pálida. Gemidos que invadem sua mente e ecoam em sentimentos escondidos e calados que nem ao menos reconhece como seu. Uma mistura de êxtase e estupor lhe invade, a vida pulsante lhe surge na medida em que o sangue jorra inundando aquela boca. O dentista cora. Envergonhado como uma criança que fez algo proibido. A moça geme na cadeira. O dentista enquanto costura a lacuna deixada pelo dente, roça sem querer o seio da moça. Os bicos estão rijos, ele sente uma vontade louca de abandonar seu corpo sobre o da estranha que gemera e sofrera por sua ação. Não o faz. Terminada a sutura, a moça agradece e se vai sem explicações ou despedida.
...
Sentado em sua cadeira, ele fantasia com o retorno da jovem pálida. Mas antes que a paciente pudesse falar qualquer palavra, ele diria enfático e sorridente: "Já sei: sem anestesia, por favor".
Sampa, 08 de Abril de 2009

Do titulo...

Há tempos guardo alguns textos que escrevi. Textos que ficaram perdido em pastas e caixas, pouco vistos e lidos para poucas pessoas. E que agora residiram neste sítio. CasaDeYemanjá é o local onde postarei essa "produção" escrita de forma dispersa, sem nenhum compromisso além da vontade de ver no papel uma ideia que me "martelava". Cada texto está ligado a algo que marcou: seja uma noticia, uma imagem, uma música, uma cena que presenciei, algo que vivi.
São recortes ficcionais ( e espero que poeticos) de pequenas obcessões. E acredito que "saudaveis" obcessões são uma materia prima ideal pra quem quer se arriscar no mundo da Arte ( sim! com letra maiuscula, pra terminar com efeito...rs).