segunda-feira, 29 de junho de 2009

SEM ANESTESIA, POR FAVOR.

Sentado em sua cadeira, lembrava-se. E enquanto recordava, involuntariamente, acariciava o sexo que repousava entre suas pernas. Preguiça e luxuria misturavam-se, num desses raros momentos de ócio que só com o auxilio da memória ou da imaginação somos capazes de produzir. O que o excitava propriamente não era os atributos físicos do objeto em questão, mas a forma como ela se aproximara dele. E a frase. A frase que recorria em sua mente como um mantra: Sem anestesia, por favor.
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Acostumado a lamentos e gemidos. As crises recorrentes de fobia e pânico. tendo muitas vezes que se transformar em psicólogo, profissão que de forma alguma estava preparado para sê-lo nem por formação muito menos por aptidão. Aquele homem, um dentista, que muitas vezes utilizava a anestesia de forma abusiva para evitar todo tipo de dialogo ou explicação demasiada sobre qualquer procedimento que gerasse dor, espantou se de forma irremediável quando a jovem pálida, sentada em sua cadeira de trabalho, disse com uma tranquilidade sobre-humana que declinava e preferia que todo procedimento fosse realizado sem paliativos ou subterfúgios químicos. E de forma redundante afirma: sem anestesia, por favor.
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O homem por momentos permanece estático. A frase o atingira não só pelo o carater inusitado. Uma incongruência se estabelece. Nunca em tantos anos de profissão algo parecido lhe acontecera. A dor era o inimigo a ser combatido: a anestesia era a sua maior aliada, mas insatisfeito já colocara músicas em seu consultório, bichinhos coloridos a enfeitar a aparelhagem e até óculos que transmitem imagem ou filmes encomendara; tudo com o simples objetivo de esquecer que estiveram lá, a cuidar dos dentes, sentindo o menos possível as consequências de tantos anos de abandono bucal. E agora isso.
Mas teremos que arrancar, diz o homem numa tentativa vã. A jovem permanece irredutível. Ele então prepara os instrumentos: um a um coloca na bandeja. Instintivamente pega a injeção, mas recorda-se que hoje, ou melhor, que neste momento ela não será usada. Um arrepio percorre seu corpo e ele observa a jovem pálida e tenta desvendar que segredos e trauma se escondem por trás desse semblante sereno. Algo bom não será, pensa e senti uma pitada de remorso por julgar uma pessoa da qual mal o nome sabe.
Especulações sem sentido que visam apenas adiar o momento do trabalho. Nem por um minuto, o dentista pensa que pode simplesmente recusar o serviço. Não, ele apenas executa aquilo que foi treinado para fazer. Mas cada passo lhe dói como se fora ele o paciente sentado na cadeira. Sente cada puxão e solavanco dado no dente resistente. Soa e nele ressoa cada gemido emitido pela jovem pálida. Gemidos que invadem sua mente e ecoam em sentimentos escondidos e calados que nem ao menos reconhece como seu. Uma mistura de êxtase e estupor lhe invade, a vida pulsante lhe surge na medida em que o sangue jorra inundando aquela boca. O dentista cora. Envergonhado como uma criança que fez algo proibido. A moça geme na cadeira. O dentista enquanto costura a lacuna deixada pelo dente, roça sem querer o seio da moça. Os bicos estão rijos, ele sente uma vontade louca de abandonar seu corpo sobre o da estranha que gemera e sofrera por sua ação. Não o faz. Terminada a sutura, a moça agradece e se vai sem explicações ou despedida.
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Sentado em sua cadeira, ele fantasia com o retorno da jovem pálida. Mas antes que a paciente pudesse falar qualquer palavra, ele diria enfático e sorridente: "Já sei: sem anestesia, por favor".
Sampa, 08 de Abril de 2009

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