
Alguns temas são difíceis de tratar no teatro. É um desafio, por exemplo, tratar da questão da exploração infantil. E mais difícil ainda dentro de um espetáculo infantil que uma mensagem, qualidade estética e uma boa recepção da criançada. Mesmo com todos os riscos, o espetáculo A Menina dos Brincos de Ouro provou que era possível unir todos estes elementos.
A peça, uma livre adaptação de um conto popular do Câmara Cascudo, foi apresentada na mostra Sesc Menino Cariri, dentro da programação do XVI Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, no Ceará. O espetáculo é uma espécie de projeto paralelo do grupo Bagaceira, levado adiante por dois integrantes da companhia, a atriz Paula Iemanjá e o ator Edivaldo Batista.
A encenação é muito desposada. Em princípio, os atores – eles mesmos, não os personagens – vão conversando com a plateia esperando o público chegar e estabelecendo um jogo à base do improviso que já dá o caráter metalingüístico do espetáculo – os atores interpretam mais de um personagem e as trocas são feitas às claras, revelando os adereços cênicos que são retirados de duas pequenas maletas.
É sob a perspectiva da sutileza metafórica que Yemanjá e Batista, ambos responsáveis pela adaptação, apresentam o tema da exploração. A menina, Maria do Socorro, perde os seus brincos de ouro, prenda dado por seu padrinho. As joias são encontradas por um homem que, posteriormente descobrimos se tratar de um parente da criança, passa a explorá-la, obrigando-a a cantar.
No palco, a alegria de Edivaldo Batista e Paula Iemanjá contagia a plateia. Os pequenos participam, intervêm, gritam. Menina dos Brincos de Ouro é um espetáculo colorido, mágico, além de ser defendido com alegria, beleza e com uma interpretação magistral, na grande tradição do teatro popular nordestino, assimilando um conteúdo, mas sem fazer se transformar refém da causa, nem caindo em simplificações que ignoram a inteligência das crianças.
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