Lembro-me de acordar cedo, ansiosa, e olhar debaixo cama: tinha uma enorme caixa e dentro dela uma bicicleta Cecizinha sem cestinha. Meu pai fala: esse é o presente por ter passado de ano e quem trouxe não foi papai Noel. Chuquinhas, quebras cabeças, uma ambulância do Doutor Sabe- tudo, um urso. Presentes que vieram nos anos vindouros. Nunca vieram, apesar dos insistentes pedidos, o laboratório de química, o Pocobol ou algum dos Lango- lango.
Também havia de bolas de vidro finíssimas: lindas, frágeis e multicoloridas. Não sei o que gostava mais: ver meu reflexo distorcido em sua superfície ou vê-las em pedaços transformadas numa poeira fininha e cacos tão delicados e pontiagudos que só a lembranças me causa arrepios de farpa.
Não fazíamos ceias ou comidas especiais. Ficávamos em silencio, mantendo uma ordem que era imposição de meu pai, e dormíamos cedo bem antes da chegada do “Menino”. Enquanto alguns comemoravam, as porta e janelas de minha casa se fechavam e só se abriam quando no amanhecer do dia seguinte quando recebíamos nossos presentes/recompensas por nossas notas e esforços. Era assim lá em casa: com presentes, mas sem a simbologia cristã (sem Jesus e as escrituras), sem a propaganda do consumo (nada de papai Noel e efusões festivas) e sem os encontros da festa.
Muitos anos se fez necessário para as coisas mudarem. A separação de meus pais, deu a minha mãe a autonomia para planejar como bem queria as festas de fim de ano. E começaram as ceias, pequenas brincadeiras de troca de presentes, os abraços festivos, a conversa com vizinhos nas escadas e nas áreas comuns do condomínio. Às vezes, a festa saia meio torta, pois meu pai chegava, demarcando seu território e entornando o caldo. E o natal voltava meio a ser como aquele de antigamente, só que invés do silencio, agora havia som e fúria.
Depois começou o natal das ausências que desfalcavam a ceia: cear na casa de namorado; assumir o trabalho no dia em que todos queriam folgar (hotelaria é a área perfeita para aqueles que fogem de encontros familiares); alguém que se casa e muda se; alguém que desiste de ultima hora; alguém que morre e que deixando o assento vazio.
Mas, ainda assim, Natal rou rou rou...
Se me perguntarem se gosto desta data, eu responderei que não. Eu não gosto, mas adoro de cozinhar para aqueles que amo. Adoro uma mesa farta e as pessoas sentadas em volta conversando besteira enquanto se deliciam. Adoro flores (isso pode até parecer que nada tem a ver com o assunto, mas tem) e tento controlar meu gênio de cão (gênio que herdei do meu pai) para não ser engolida por minhas neuroses e estragar a festa.
No natal desejamos coisas, sentimentos, mudanças. Desejamos mundos e fundos. E se desejar é falta e a falta sempre traz consigo um novo desejo. Hoje quero não desejar nada, se isso é possível, e ficarei aqui com os olhos voltados para o ontem e o hoje simplesmente curtindo esse tal “renascimento”.
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