terça-feira, 7 de julho de 2009

O Menino-deus do aquário

O lodo penetrava entre seus dedos descalços: úmido, deslizando pela pele, acariciando-a. Proporcionando uma estranha sensação de prazer. Enquanto os olhos fixos buscavam algo precioso. Num movimento rápido, o corpo se arqueia e volta-se para água,penetrando-a. As mãos, em conchas, recolhem a água e o menino, ansioso, olha ávido, depois feliz para sua captura.
Um peixe vulgar, mixuruca. Mas que aos olhos do menino, tem o valor de uma descoberta. Naquele momento um novo ser lhe surgia. Ele tenta em vão encarar o peixe, que se esquiva batendo na mão na palma da mão de seu captor. Fato que deixa o pobre animal duplamente aflito, até que, depois de alguns minutos, seja por cansaço ou desespero, ele aquieta-se e se deixa boiar, quase totalmente inerte. O menino com o zelo de um pai, deposita-o com cuidado num vidro e, ainda admirado com sua potencia, olha o peixe e sorri.
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Às vezes me sinto como um peixe. Posso parecer quieto, relaxado num lugar tranquilo. Mas minha mente, enérgica, sempre está á espreita do bote que me pode ser fatal. Não há nada pior do que viver num aquário.
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Cabe ao menino a preservação do aquário. Tarefa que desempenha com aprumo e prazer. Se ele faltar, aquela harmonia desmorona e seu mundo particular perece. Olha com carinho parar o peixe, seu xodó. Viu-o crescer, adaptar-se ao novo habitat, torna-se vigoroso. Só se ressente com o desprezo dos outros peixes com seu protegido. por que o ignoram? Ele sempre está só, escondido nas algas ou atrás de uma pedra. Quando está mais passional, o menino tem gana de entrar no aquário e sacudir todos aqueles peixes idiotas,trazendo-os para a sufocante realidade de fora do aquário. Aí, sim, eles saberão o que passa o seu pobre peixe. E se arrependerão, então o menino irá coloca-los de novo no aquário, e eles serão agora bons peixes, peixes ordeiros e amigos. E o bom menino os perdoará.
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Pedaços de membrama. Nadadeira. Um resto de uma cauda. Um olho. Tudo pequeno, insignificante. Coisas de peixe somente. Logo depois peixes pequenos começaram a parecer machucados. Era até engraçado vê-los nadando assim meio de lado, embora fosse estúpido imaginar que a causa deste nadar fosse o choque do peixe desnorteado com a parede de vidro. Mas quando o primeiro peixe apareceu boiando, um morto dilacerado, os olhos do menino encheram-se de lágrimas. E ele descobriu a morte.
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Cada perda, o menino sofria. Dia após dia acumulava o numero de baixas. Era como uma guerra silenciosa. A mais terrível de todas talvez porque aquelas vitimas não podiam gritar, seu sofrimento só era visível ao menino. Que se enojava com a ordem do aquario, com a aparente transparencia daquelas águas, com a mudez impassível daqueles peixes estúpidos incapazes de denunciar seu algoz. E ele queria chorar, mas a raiva sufocava sua voz e ele se sentia como um peixe preso no aquário, acuado como seu peixe querido. Ele sentia raiva de todos os outros peixes e principalmente de si - pois ele somente ele era o culpado de tudo. E pela primeira vez, o menino desejou morrer.
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Peixe mau. Muito mau. Não sei porque te trouxe. Porra! Te dei comida, teto pra tu fazer cachorrada! Pivete! É isso que tu é. Mas de mim não vai ter mais nada, nada! Tu não presta, é podre. É merda, cocozinho, estrume, bosta, excremento. Não serve pra nada. Tu é nada. Te renego, te escarro a cara. Maldita seja hora em que te encontrei.
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Quando descobriu que seu peixe era o terror do aquário, o menino-deus sentiu vergonha da sua criação. Era tudo tão claro, porque ele não viu desde o inicio: não eram os outros que discriminavam seu pobre peixe. Estavam acuados como o menino do aquário, que tem medo das sombras que o rodeia, dos barulhos que escuta, do gesto que pressente. E ao se sentir irmão dos outros peixes, e o peso da culpa de ser tão injusto. A fúria transfigurou o rosto do menino que retirou do aquário aquele ser que tanto amara e com uma frieza sobre-humana, arrancou, cartaticamente, uma a uma, as barbatanas daquele animal e depois o jogou de volta ao aquário.
27 de Julho de 2003

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