domingo, 28 de fevereiro de 2010

É....



Fizemos nossa segunda apresentação dos palhaços: novas ideias surgiram, outras se fortaleceram. Começou a nascer um enredo, um embrião de história. Talvez seja o fio que faltava para justificar toda a esquete. A personagem do Ed está mais atuante, mais forte. Aumentamos interação entre essas duas figuras.
Me questiono sobre o porque e para quem fazemos esse trabalho. Para que serve um bando de "palhacinhos" deprimidos e psicoticos? Que dramaturgia será essa que vem do corpo?
São perguntas para quais ainda não tenho resposta.
Mas conversando/testando a gente se entende...
Espero...

fotos: Rafael Escósio



terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Margarete e as tragédias cotidianas - Projeto In certo; Cena 03



Desespero, desesperança e muita tinta vermelha. Mundo cão pede ajuda e é atendido por descrentes atendentes de um bizarro centro de ajuda a vida: "Vai passar, tem gente muito pior que você" é o que dizem . Os personagens não tem nome nem história, atendem telefonemas e entre uma ligação e outra desabam em espasmos alucinados para logo depois se recomporem e continuarem em sua jornada obsessiva. A única esperança de felicidade é o caso de Margarete, deficiente que só mexia um olho, e que apesar de todas as contrariedades era feliz. Se ela pode, você também poderá ser feliz...


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Não é que o In Certo virou palhaçada!!!!. - Cena 02



Palhaçaria é padecer no paraíso. Estimulante, desesperador e, principalmente, apaixonante. Estou apaixonada por essa palhaçacinha que criei e não sei como terminar ou melhor começar essa história. Êh! Vida...
Minha noiva-palhaça, alcoolatra e deprimida está muito segura em sua caixa. Poeticamente iluminada, sob um recorte vermelho, ela sofre sendo espionada por sua amiga estranha. E eu sofro também, por saber que terei que abandonar a imagem/estrutura que construir (pelo menos por enquanto) e me aventurar nas incertezas da sala de ensaio crua e da rua expondo/testando seu sofrimento. Será que a noivinha resistirá? Que será dela e de mim reboladas nesse mundão de Deus?
"O palhaço lida com o fracasso. Um bom palhaço tem uma cara de fracassado!" dizia num portunhol encabulado Oskar Zimmerman numa oficina no Theatro José de Alencar ano passado. Foi ele que me lembrou que o palhaço trabalha com erro, com a tentativa. É uma condição paradoxal e porque não dizer trágica: treinar o erro para poder acertar.
E lá vamos nós pela rua...
Olha a palhaça no meio da rua...



Projeto In certo: Cena 01 - CÃO FEROZ



"- Quero que você saiba que não sou eu que estou lhe deixando. Você já me deixou faz tempo?


-De novo com essa conversa?

- É a ultima vez. Vou deixar você em paz.

Quem disse para ele que eu quero paz? Eu quero guerra."

(Paulo Leminski)


Para primeira proposta de cena, recebi um envelope de papel do Ricardo (Tabosa) que continha um texto retirado de um blog da internet. Esse texto se iniciava com uma epigrafe de Paulo Leminski e foi a partir dela que busquei inspiração pra meu primeiro exercício.

O texto remetia a situações que vivi, me reconhecia na linguagem e isso me instigava bastante. Desde do inicio sabia que partindo dessa premissa para criação optaria por uma cena que falaria de mim e isso me deixava um pouco relutante. Como se não bastasse essa ser praticamente uma "estreia" (seria a primeira fez que apresentaria uma cena criada para um exercício no grupo), me sentia duplamente exposta por levar referencias da minha vida sentimental. Resolvi desencanar pois não tinha outra ideia e por acreditar que de um jeito ou de outro acabamos falando de nós quando criamos algo.



Queria usar folhas secas e amareladas. Acho lindo: me remetem a tempo que passa, a nostalgia, a abandono, a outono, gosto da textura, do cheiro, da cor, do som quando as manipulamos. Todo dia quando ia para a sede passava pelo 23º BC e paquerava com aquelas lindas folhas de eucalipto caídas e me perguntava o quê as pessoas iram pensar quando de dentro de seus carros vissem uma pessoa recolhendo aquelas folhas com enorme saco de lixo preto? Um belo dia, limparam a rua e as folhas se foram. Adeus folhas... Pelo menos eu pensava que seria assim...



Outro elemento que queria usar era uma música do Portishead. Adoro esse grupo. E ele me em embalou alguns momentos. Na época estava ouvindo bastante o disco Third.



Trabalhar com o Yuri (Yamamoto) e o Aristides (Ribeiro) me ensinaram a pensar nos detalhes e na composição da imagem do personagem/persona e da cena. Cada detalhe é importante: o porquê desta roupa e não aquela, o que quero mostrar/esconder com luz. Pensei nesses detalhes e preparei opções pra utilizar na execução do trabalho.



Faltava juntar tudo e ver no que dá. Fui pra sede com todos elementos e um pouco de desespero por não saber se aquele emarananhado de ideias e tralha de coisas resultaria em algo. Disponha de elementos e não sabia o que fazer. Tinha medo de ir para sala de ensaio. Me intimidava o grande salão preto por isso preferir ficar na sala de reunião. Ouvindo obsessivamente o mesmo cd, depois a mesma música "Nylon Smile", me deixei levar pela musica: os movimentos surgiram, as ideia foram se organizando, me veio a cabeça um texto meu "cão feroz" e comecei a dizê-lo da forma que me lembrava. Repeti, repeti. Já sabia o que faria. Escrevi o texto e organizei mentalmente um roteiro. Fui a sala de material, escolhi um outro figurino ( minha primeira proposta era um vestido longo quase de festa rs...), queria algo mais intimo, escolhi uma camisa masculina branca. Peguei um banco preto. Separei o material para luz: um espelho, velas e uma lâmpada incandescente. Separei algumas lembranças e a musica que usaria e fui para sala prepara-la para minha cena. As folhas ainda me martelavam a cabeça, andando pelo quintal da casa vi varias. Não eram as de eucalipto mas tinham seu charme. Recolhi-as. Cheguei na sala com um saco de folhas e sem saber se as usaria. A Taty (Amorim - que apresentaria sua cena no mesmo dia e que operou minha sonoplastia) já estava lá no salão disse "Usa mulher!" era o que faltava.

Antes da apresentação fiquei nervosa, achei que nada daria certo. A apresentação aconteceu e fiquei feliz com o resultado. Vi que as aulas de dança contemporânea da Fabíola (de Paula) me influenciaram na criação e que a união dos movimentos, texto e música geraram uma cena perfomática, quase um teatro-dança.

Primeiro trabalho cumprido! Que venham os próximos.



quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Branco

Folha branca...
Mente em branco...
Onde estão as palavras levadas pelo vento? Proferidas, perdidas para sempre... Onde estão estas palavras ausentes, dormentes? Que reverberam não sei onde atingindo não sei o quê e fico assim, calada, pensando tentando entender, em vão, o vão que se abre e engole e separa. Pisco meus olhos para enganar e me afastar da vertigem que me atrai. Miragem que puxa e me suga. E tomada de coragem mergulho na fundura negra do espaço que se abre. Olhos abertos, olhos secos que mais secos se tornam na escuridão total. Dia e noite são um só, e consigo escutar vozes antes inaudíveis que foram caladas por uma profusão de imagens que me cegam e distraem. Mar de informação sem razão, tempo que se funde; desterritorialização, estrangeira de mim mesma sigo como uma Alice sem noção: des-patriada, des-norteada, em busca de significação. Mar que me invade e me leva de roldão. Imensidão. Solidão. Dormir, dormir... Talvez sonhar. Quem sabe...
Acordo.
Caminho exausta por esta estrada que parece levar a lugar nenhum.
Fecho meus olhos cansados...

sábado, 8 de agosto de 2009

CONVERSA NUMA NOITE FRIA

Estamos sós do nascimento a morte. Estamos sós quando somos expulsos do ventre como uma carne que está preste a apodrecer. Sim: expulso, expelido, cuspido. Sim. Sabe aquela história que dois corpos não podem ocupar um mesmo lugar... É física para biologia. Jogados numa fria. Não se engane... A frieza, o frio que sentimos e que faz com que as nossas queridas mães nos agasalharem, é só uma previa do que virá depois. Sempre senti frio em meus momentos mais sinceros de felicidade. Engraçado isso? É meu instinto me alertando: viva, mas não se esqueça... E nunca me esqueci. O mais engraçado é que a felicidade fica tão intensa, tão verdadeira quando se sabe que... Que ela vai... Que posso quase tocá-la. E quase desejo que uma brisa leve para longe essas ideias que borboleteiam em minha cabeça. Essa palavra borboletear, eu ouvi de um poeta, pelo menos ele dizia que era e falava daquele jeito de quem se diz artista: Façam silêncio que as palavras estão borboleteando em minha pena! Pena! Era a caneta, uma dessas bem vagabundas que ninguém liga quando perde. E ele ficava rabiscando, todo sério e de repente uma tristeza chegava e ele fechava o caderno. Assim do nada. Os poemas? Esses, nunca vi...

Nascemos para vida e para solidão. Porque o espanto? É sou uma vagabunda filosófica... Não. Filosofa vagabunda! Não é filosofo que vive pensando, fica lá pensando matutando... É muito azar! Nascer uma vez e ser duplamente vagabunda... Calma não precisa ter pressa! Gostei de você. Me lembra alguém mas com uma vantagem: Cê fica mudinho, caladinho. Tenho que te dizer uma coisa: eu desistir. Desistir do outro, ou melhor, da companhia do outro. Não somos criados para isso, para conviver, pra tá junto. Sou amarga, sou; sou insensível, sou; sou sem fé, também! O que quiser. Mas não minto mais pra mim nem acredito em propaganda pra vender margarina, roupa, sapato, pasta de dente, sabão em pó, sabão em barra, sabão de coco, maquiagem, computador, carro, refrigerante, creme de leite, leite condensado, leite em pó, leite de rosas e cerveja. Mas essa eu compro pois matar a sede e ainda faz descer redondo. E até espanta o frio.

Lembra da mãe que enrola o bebe em mil fraldas e cueiros, tudo pra ele se aquecer. Essas coisas são assim, nos aquecem e fazem esquecer. Até no sexo, estamos sós. Sim. Dizem que sexo é cabeça e como vou entrar na cabeça do outro. Coisa mais besta... E o amor? O mais próximo do amor que conheci, foi uma história que ouvi anos atrás. Uma puta escuta uma canção no radio e se apaixona pelo cantor. Compra aparelho de som, disco, foto, revista, tudo que o artista aparecia. Era um amor sem fim que consumia cada centavo da pobre coitada. Uma noite bêbada, olhando para uma foto do moço, a paixão explode: beija, se esfrega, lambe até que no fim come a foto. Tira essa mão daí. História ainda não acabou... Uma a uma vai comendo as fotos, até que um dia o cantor aparece na cidade e a moça se arruma toda e vai ao show. Fisga o cantor que a trata como uma rainha. Leva pra todo lado, bate foto e tal. Numa noite ela acorda e ele não está mais lá, então como uma louca sai de anágua pela rua gritando por ele que se foi.

Tá frio aqui. Um frio de matar, né? Na morte também estamos sozinho. Dizem, né? Do começo ao fim... Os meios são só pra nos aquecer. Cê não é de falar muito... Mas não tem problema, não precisa dizer nada. Eu sei o que fazer.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Das palavras não ditas... / e ou... / Com cautela não se vive

Oi.
Oi.
...

Tá bem?
Pq?
Nada, deixa.
Ah!
Oq?
Só "ah!".
Eu sei...
Então...
Então oq?
Nada!
...

Não precisava...
Fiz nada.
Tá vendo?
Oq?
Fez!
Oq?
Nada.

...

Fiz.

...
...
...

Só..
Só?
É.
E?
Oq?!
Ah! Sei lá...

...

Caralho.

...

É caralho!

...
...

Entendi................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................

segunda-feira, 27 de julho de 2009

domingo, 26 de julho de 2009

FUGAZ

Quase estranhos.
Gulosos olhares.
E uma única vontade:
Ter e ser, ser e sentir.
Sob a égide da vontade, a entrega.
Corpos que se fundem.
E quando plenos de um pseudo-amar, cospem se e repelem-se.
Mutuamente.
De resto, a cortesia:
Boa noite,
E até mais.

Talvez, Junho 2003?

...

Olhares, falares,
Pulsações, suspiros,
Salivas, línguas
Sexo.
Um par perfeito.
Como num filme que já vimos mas adoramos rever;

Mas, depois,
O anoitecer
Olhares que não se cruzam;
Tediosos suspiros;
Ausencias;
Línguas, antes bem-vindas, ferinas
Repletas de ferozes palavras felinas
Como num drama negro de final infeliz.
E a ultima palavra:
A saliva que escorre no rosto no ardor quente da agressão.

( Junho de 2003)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

pois é...


terça-feira, 7 de julho de 2009

O Menino-deus do aquário

O lodo penetrava entre seus dedos descalços: úmido, deslizando pela pele, acariciando-a. Proporcionando uma estranha sensação de prazer. Enquanto os olhos fixos buscavam algo precioso. Num movimento rápido, o corpo se arqueia e volta-se para água,penetrando-a. As mãos, em conchas, recolhem a água e o menino, ansioso, olha ávido, depois feliz para sua captura.
Um peixe vulgar, mixuruca. Mas que aos olhos do menino, tem o valor de uma descoberta. Naquele momento um novo ser lhe surgia. Ele tenta em vão encarar o peixe, que se esquiva batendo na mão na palma da mão de seu captor. Fato que deixa o pobre animal duplamente aflito, até que, depois de alguns minutos, seja por cansaço ou desespero, ele aquieta-se e se deixa boiar, quase totalmente inerte. O menino com o zelo de um pai, deposita-o com cuidado num vidro e, ainda admirado com sua potencia, olha o peixe e sorri.
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Às vezes me sinto como um peixe. Posso parecer quieto, relaxado num lugar tranquilo. Mas minha mente, enérgica, sempre está á espreita do bote que me pode ser fatal. Não há nada pior do que viver num aquário.
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Cabe ao menino a preservação do aquário. Tarefa que desempenha com aprumo e prazer. Se ele faltar, aquela harmonia desmorona e seu mundo particular perece. Olha com carinho parar o peixe, seu xodó. Viu-o crescer, adaptar-se ao novo habitat, torna-se vigoroso. Só se ressente com o desprezo dos outros peixes com seu protegido. por que o ignoram? Ele sempre está só, escondido nas algas ou atrás de uma pedra. Quando está mais passional, o menino tem gana de entrar no aquário e sacudir todos aqueles peixes idiotas,trazendo-os para a sufocante realidade de fora do aquário. Aí, sim, eles saberão o que passa o seu pobre peixe. E se arrependerão, então o menino irá coloca-los de novo no aquário, e eles serão agora bons peixes, peixes ordeiros e amigos. E o bom menino os perdoará.
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Pedaços de membrama. Nadadeira. Um resto de uma cauda. Um olho. Tudo pequeno, insignificante. Coisas de peixe somente. Logo depois peixes pequenos começaram a parecer machucados. Era até engraçado vê-los nadando assim meio de lado, embora fosse estúpido imaginar que a causa deste nadar fosse o choque do peixe desnorteado com a parede de vidro. Mas quando o primeiro peixe apareceu boiando, um morto dilacerado, os olhos do menino encheram-se de lágrimas. E ele descobriu a morte.
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Cada perda, o menino sofria. Dia após dia acumulava o numero de baixas. Era como uma guerra silenciosa. A mais terrível de todas talvez porque aquelas vitimas não podiam gritar, seu sofrimento só era visível ao menino. Que se enojava com a ordem do aquario, com a aparente transparencia daquelas águas, com a mudez impassível daqueles peixes estúpidos incapazes de denunciar seu algoz. E ele queria chorar, mas a raiva sufocava sua voz e ele se sentia como um peixe preso no aquário, acuado como seu peixe querido. Ele sentia raiva de todos os outros peixes e principalmente de si - pois ele somente ele era o culpado de tudo. E pela primeira vez, o menino desejou morrer.
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Peixe mau. Muito mau. Não sei porque te trouxe. Porra! Te dei comida, teto pra tu fazer cachorrada! Pivete! É isso que tu é. Mas de mim não vai ter mais nada, nada! Tu não presta, é podre. É merda, cocozinho, estrume, bosta, excremento. Não serve pra nada. Tu é nada. Te renego, te escarro a cara. Maldita seja hora em que te encontrei.
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Quando descobriu que seu peixe era o terror do aquário, o menino-deus sentiu vergonha da sua criação. Era tudo tão claro, porque ele não viu desde o inicio: não eram os outros que discriminavam seu pobre peixe. Estavam acuados como o menino do aquário, que tem medo das sombras que o rodeia, dos barulhos que escuta, do gesto que pressente. E ao se sentir irmão dos outros peixes, e o peso da culpa de ser tão injusto. A fúria transfigurou o rosto do menino que retirou do aquário aquele ser que tanto amara e com uma frieza sobre-humana, arrancou, cartaticamente, uma a uma, as barbatanas daquele animal e depois o jogou de volta ao aquário.
27 de Julho de 2003

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Cão feroz...

Tento entender o que devia sentir e sinto o que deveria entender. Não reconheço a linha tenue que separa objetividade de agressividade. Me falta sutilezas: escutar silêncios, inteirar palavras, fazer curvas. Mundo em preto e branco - território partido - tabuleiro de guerra. Sou o vermelho, o carmim, o encarnado das unhas. Acostumada a cores fortes, não me acostumo com o rosa, o branco, o bege das rendas. A delicadeza sutil das unhas à francesa. Enfim, sanguínea que rumina fantasmas. Não só os vejo, os crio, os alimento. Conversamos, num amor e ódio sem fim. Enfim: cão ferido, incapaz de distinguir o salvador do algoz, que rosna e mordi quem tenta lhe acolher.
....
De um ontem que sempre pode ser agora.



UNIVERSO

Beira de praia.
Balburdia infantil: pleno carnaval em dia de semana. Gritos, risos, reclamações, xingamentos, pazes, novas brincadeiras. Só alegria .
Uma mulher, hippie, sai de casa visivelmente impaciente. Jovem demais para aquela vida, velha para a idade que realmente tem. Se aproxima da muvuca e grita: Universo!!!!
Um moleque olha. Aproximadamente sete anos, negrinho sarará do olho claro e cabelo descolorido.
Passa pra dentro Universo!
Universo baixa a cabeça e com o rabinho entre as perna atravessa a soleira da porta.
Hj.
(a partir de uma cena vista por yuri em Jeri)

"Menina..." no Bom Jardim



"A MENINA DOS BRINCOS DE OURO"
dIAS: 05 E 19 DE jULHO
Às 18H
Centro Cultural Bom Jardim
ENTRADA FRANCA

terça-feira, 30 de junho de 2009

“Instantâneo” e/ou “Como poderia ter sido” e/ou “Nunca compre um miojo durante uma crise existencial”

Colocou delicadamente a água dentro do copo de plástico, sempre odiava quando um pouco do liquido escorria queimando lhe os dedos. Fechou a abertura por onde despejara a agua e esperou. Agora seria uma questão de minutos: dentro de meros três minutos, uma deliciosa refeição estaria pronta. Olhava fixamente para o copo tampado. Que mistérios se esconderiam naquele pote. Que mágica transformaria aquele macarrão insípido, seco e esturricado num delicioso macarrão instantâneo? É lógico que sabia que ele, o macarrão, era desidratado, assim como os outros ingredientes que o acompanhavam, e que ao entrarem em contato com o liquido se hidratavam e os sabores se misturavam, condensavam, aglutinavam se, o diabo a quatro, e pronto... Está pronto. Até aí compreendia completamente. O que a fazia duvidar era como é possível gostar e até desejar aquele alimento cujo sabor é a pura encarnação da artificialidade.
Decidiu levantar a tampa e espiar por quais transformações passavam sua refeição. A primeira coisa que lhe chamou atenção foi as ervilhas, bem o que viria a ser as ervilhas. Eram pequenas bolas murchas, que não tinham gosto de nada, que boiavam sem rumo numa mancha amarronzada que tinha o sabor de carne, embora o gosto ilustrasse mais do que lembrasse o que se propunha. O macarrão amolecia aos poucos, ao mesmo tempo em que algo nela esmorecia também. E lembrava se que um dia em algum lugar remoto ouvira dizer que somos o que comemos. E assolada por essa lembrança, constatou que se essa sentença fosse verdadeira, ela, com certeza, seria parecida com aquele macarrão.
Esta constatação lhe deixou estarrecida. Ela que se julgava tão autentica, tão segura de si, se parecer com uma comidinha mixuruca e praticamente sem valor nutritivo. E pior artificial. A artificialidade era o que mais lhe doía, e agora lembrava se de todas pequenas "artificialidades" que cometera no dia a dia: como o sorriso forçado que dera outro dia, as desfeitas que tinha que engolir seja no trabalho ou em casa e que fingia que não via, lembrou-se até de uma vizinha da época da infância que não suportava. Por que aceitava essas pequenas farsas? Por que compactuava com essas mentiras? Sorrir quando na verdade não queria, ser fria quando em seu interior desejava estar em erupção, e outras renuncias pequenas que só se tornam menores por que os outros as estabeleceram como tal. Desejou ardentemente ser livre, mas como descobrir a liberdade presa ao seu simulacro, o seu copo, onde desde a origem já estava definido o que ali caberia. Teria a força de romper as barreiras de sua própria limitação? Indo de encontro à linha que delimita a quantidade estipulada da água e transbordar ou então propositalmente aceitar o fracasso do preparo não depositando ali a água esperada. Todas as duas opções traziam consigo o estigma do fracasso, da não -adequação. Por mais boba que fosse sabia quão difícil é ser diferente num mundo onde todos querem ser iguais. Por fim sabia, também, que tudo se resumia ao macarrão que agora misturava: poderia derruba-lo, mandando tudo as favas, ou então o engolir por mais difícil que seja a digestão, restando lhe o consolo e apoio dos mais diferentes tipos de digestivos.
Era uma escolha difícil. Olhava para massa dentro do pote e realmente não sabia o que fazer. tinha que haver outra opção. Até que uma ideia simples lhe surgiu. Ora! Poderia comer outra coisa. Feliz correu para o armário, abriu-o: biscoito recheado sabor artificial de morango, queijo síntetico sabor cheddar, creme sabor cebola com corante anilina, gelatina sabor chiclete, sopa de feijão com aroma artificial de bacon, arroz colorido geneticamente modificado... Desesperadamente começou a lançar os produtos no chão. Mas na medida em que adentrava nas partes mais abissais do armário mais longe ficava dos produtos naturais que almejava. Será que nesta porcaria de casa não tem nada legitimo e saudável? Foi a geladeira porém só encontrou uma alface murcha e queimada pelo frio. Angustiada lançou se a rua, correndo como uma desvairada. Buscando incessantemente uma verdadeira naturalidade que nem mesmo ela era capaz de definir. Correu muito, atrapalhando o transito, causando acidentes, incomodando os transeuntes. Até que viu uma linda vitrine numa loja muito distinta que reproduzia com beleza um pequeno jardim com maravilhosas rosas sem perfumes e lá ficou até que o gerente chamou uma viatura que a levou presa por desordem, invasão e desacato a autoridade. Hoje, depois de seis meses de terapia, diversos ansioliticos e antidepressivos, e doses absurdas de prozac, ela se considera uma pessoa feliz embora sempre que coma um miojo sinta uma vontade incrível de chorar.
13/10/2003

segunda-feira, 29 de junho de 2009

SEM ANESTESIA, POR FAVOR.

Sentado em sua cadeira, lembrava-se. E enquanto recordava, involuntariamente, acariciava o sexo que repousava entre suas pernas. Preguiça e luxuria misturavam-se, num desses raros momentos de ócio que só com o auxilio da memória ou da imaginação somos capazes de produzir. O que o excitava propriamente não era os atributos físicos do objeto em questão, mas a forma como ela se aproximara dele. E a frase. A frase que recorria em sua mente como um mantra: Sem anestesia, por favor.
...
Acostumado a lamentos e gemidos. As crises recorrentes de fobia e pânico. tendo muitas vezes que se transformar em psicólogo, profissão que de forma alguma estava preparado para sê-lo nem por formação muito menos por aptidão. Aquele homem, um dentista, que muitas vezes utilizava a anestesia de forma abusiva para evitar todo tipo de dialogo ou explicação demasiada sobre qualquer procedimento que gerasse dor, espantou se de forma irremediável quando a jovem pálida, sentada em sua cadeira de trabalho, disse com uma tranquilidade sobre-humana que declinava e preferia que todo procedimento fosse realizado sem paliativos ou subterfúgios químicos. E de forma redundante afirma: sem anestesia, por favor.
...
O homem por momentos permanece estático. A frase o atingira não só pelo o carater inusitado. Uma incongruência se estabelece. Nunca em tantos anos de profissão algo parecido lhe acontecera. A dor era o inimigo a ser combatido: a anestesia era a sua maior aliada, mas insatisfeito já colocara músicas em seu consultório, bichinhos coloridos a enfeitar a aparelhagem e até óculos que transmitem imagem ou filmes encomendara; tudo com o simples objetivo de esquecer que estiveram lá, a cuidar dos dentes, sentindo o menos possível as consequências de tantos anos de abandono bucal. E agora isso.
Mas teremos que arrancar, diz o homem numa tentativa vã. A jovem permanece irredutível. Ele então prepara os instrumentos: um a um coloca na bandeja. Instintivamente pega a injeção, mas recorda-se que hoje, ou melhor, que neste momento ela não será usada. Um arrepio percorre seu corpo e ele observa a jovem pálida e tenta desvendar que segredos e trauma se escondem por trás desse semblante sereno. Algo bom não será, pensa e senti uma pitada de remorso por julgar uma pessoa da qual mal o nome sabe.
Especulações sem sentido que visam apenas adiar o momento do trabalho. Nem por um minuto, o dentista pensa que pode simplesmente recusar o serviço. Não, ele apenas executa aquilo que foi treinado para fazer. Mas cada passo lhe dói como se fora ele o paciente sentado na cadeira. Sente cada puxão e solavanco dado no dente resistente. Soa e nele ressoa cada gemido emitido pela jovem pálida. Gemidos que invadem sua mente e ecoam em sentimentos escondidos e calados que nem ao menos reconhece como seu. Uma mistura de êxtase e estupor lhe invade, a vida pulsante lhe surge na medida em que o sangue jorra inundando aquela boca. O dentista cora. Envergonhado como uma criança que fez algo proibido. A moça geme na cadeira. O dentista enquanto costura a lacuna deixada pelo dente, roça sem querer o seio da moça. Os bicos estão rijos, ele sente uma vontade louca de abandonar seu corpo sobre o da estranha que gemera e sofrera por sua ação. Não o faz. Terminada a sutura, a moça agradece e se vai sem explicações ou despedida.
...
Sentado em sua cadeira, ele fantasia com o retorno da jovem pálida. Mas antes que a paciente pudesse falar qualquer palavra, ele diria enfático e sorridente: "Já sei: sem anestesia, por favor".
Sampa, 08 de Abril de 2009

Do titulo...

Há tempos guardo alguns textos que escrevi. Textos que ficaram perdido em pastas e caixas, pouco vistos e lidos para poucas pessoas. E que agora residiram neste sítio. CasaDeYemanjá é o local onde postarei essa "produção" escrita de forma dispersa, sem nenhum compromisso além da vontade de ver no papel uma ideia que me "martelava". Cada texto está ligado a algo que marcou: seja uma noticia, uma imagem, uma música, uma cena que presenciei, algo que vivi.
São recortes ficcionais ( e espero que poeticos) de pequenas obcessões. E acredito que "saudaveis" obcessões são uma materia prima ideal pra quem quer se arriscar no mundo da Arte ( sim! com letra maiuscula, pra terminar com efeito...rs).